segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

2010: A governação não criou condições para a bonança!


As expectativas para 2010 devem ser analisadas à luz das opções tomadas no passado e tendo presente a estratégia de governo vertida no orçamento regional para 2010.
Por isso, não vale a pena falar do futuro, de forma sustentada, sem três premissas complementares: 1) o diagnóstico económico-social da RAM; 2) o percurso mais recente da economia regional; 3) e as opções de política económica que nortearão a governação regional em 2010 e, portanto, as respectivas expectativas futuras.
1. Diagnóstico económico e social
Os indicadores disponíveis obrigam a uma reflexão profunda quer na economia quer na componente social.
Na economia destaca-se o seguinte:
a.                    a crise no turismo, onde todos os dados disponíveis apontam para a depreciação gradual do destino (queda sistemática do Rev Par e das taxas de ocupação,por ex.);
b.                   a paragem brusca e inevitável do investimento público, decorrente da ausência de meios financeiros próprios para o financiar;
c.                    a incapacidade do Centro Internacional de Negócios da Madeira (CINM) de catapultar uma dinâmica de crescimento económico que possa substituir (ou ser complementar) às dificuldades do turismo. Tudo por culpa de um poder adormecido face às potencialidades do CINM;
d.                   a crise da construção civil, sector que imprimia um natural aquecimento à economia mas que dependia exclusivamente do sector público e do turismo, ambos em crise profunda; 
e.                    o crescimento da dívida pública que retira margem de manobra ao governo regional para a apresentação de medidas anti-cíclicas coerentes e eficazes;
f.                     a erosão da propensão ao consumo e ao investimento por parte do mercado interno em virtude da ausência de uma política fiscal competitiva; 
g.                    o efeito sobre a economia de opções erradas de investimentos cujos encargos de manutenção aumentam a despesa corrente e não libertam meios para a amortização da divida. Estas opções resultaram num custo de oportunidade cujas conseqüências negativas ainda são difíceis de avaliar.
h.                   O efeito sobre as PME’s regionais da ausência de pagamento a tempo e horas aos fornecedores regionais provocando um garrote asfixiante à actividade do sector privado endógeno;
i.                     Um sector privado frágil e cada vez menos dinâmico. A RAM foi a Região do pais onde, no último ano e de acordo com a empresa D&B, mais empresas pediram a insolvência e one o risco comercial é mais elevado conduzindo ao aumento exponencial das dificuldades  dessas empresas se financiarem junto da banca.  
Na área social destaca-se o seguinte:
a.     um desemprego que não pára de crescer. Numa população activa de 126 000 indivíduos a RAM já ostenta mais de 13 500 desempregados. Uma taxa que já supera os 10%. Superior à media Europeia;
b.     níveis de pobreza superiores à media nacional. Segundo alguns estudos, designadamente o último do banco de Portugal, mas também o apuramento realizado pelo INE sobre o rendimento das famílias, a RAM é, por um lado, a região do país com mais pobres, face ao global da população, e por outro, é a região do pais, a par da região norte, com o risco de pobreza mais elevado;
c.      é a região do pais com piores índices de conforto;
d.     é uma das regiões com rendimento primário menor do que a criação de riqueza produzida, indiciando disparidades entre a riqueza e a distribuição de rendimentos.
e.     Ostenta problemas graves, e em crescimento, de alcoolismo, e de toxicodependência. Alem do aumento evidente do crime, mesmo que menos violento mas denunciando a fragilidade social que nos encontramos.
Perante este cenário sócio-económico importa reflectir sobre o que nos fez caminhar para esta trágica situação.
2. A evolução recente
Contudo, não me parece relevante, ou mesmo prudente, o discurso catastrofista ou fatalista. Antes, é necessário muito realismo e pragmatismo de modo a ser possível aplicar todas as iniciativas capazes de retirar a região deste beco estreito que a governação do PSD nos atirou. 
Nada disto aconteceu por acaso. Vejamos alguns episódios relevantes da governação dos últimos anos.
A criação de riqueza da Madeira não tem parado de dar mostras de perder toda a pujança dos anos 90. O PIB real da RAM passou de um crescimento de 4% em 2004 (ano de eleições) para 0,6% em 2008. Nos Açores o crescimento real de 2004 foi de 2,2% e em 2008 foi de 2,3% (ver quadro infra)


Madeira (crescimento do PIB real)
Açores (crescimento do PIB real)
2003
-3,6%
0,6%
2004
4,0%
2,2%
2005
2,0%
2,1%
2006
3,0%
3,1%
2007
1,5%
1,9%
2008
0,6%
2,3%



 (fonte: INE)
Como se verifica pelo quadro anterior com a crise de 2003 a Madeira apresentou um crescimento negativo do PIB real e os Açores mantiveram crescimentos positivos. Alem disso, apesar da propaganda o crescimento real da economia Madeira tem sido sistematicamente à dos Açores. Esta constatação não é um regozijo mas antes um alerta para a necessidade de arrepiar caminho e introduzir o modelo de desenvolvimento adequado que tire todas as vantagens das potencialidades económicas que a RAM ostenta.
Nada disto é por acaso. Na verdade, a Madeira ostenta desde 2000 fragilidades na dinâmica de investimento, tendo mesmo registado as reduções mais bruscas e mais significativas na FBCF (formação bruta de capital fixo) nos últimos anos. Entre 2000-2005 a RAM foi a segunda região com menor formação bruta de capital fixo (menos investimento). Pior. Em 2006 a Madeira registou a segunda maior redução de investimento do pais (27%).
  No desemprego a Região passou de uma taxa de 3% em 2004 para, num crescimento galopante ao longo dos anos, passar a apresentar ,no final de 2009, um resultado que não pode orgulhar ninguém e que ascende aos 10%, são mais de 13 500 desempregados.
Apesar do suposto aumento do crescimento económico (discurso pouco credível como se verifica pela análise do quadro em cima) a pobreza não deu mostras de diminuir e hoje, infelizmente a Madeira é, por culpa própria, a campeã nacional nesta matéria.
Perante tudo isto as contas públicas também não pararam de evoluir negativamente. Só dois exemplos: despesas correntes crescem todos os anos demonstrando uma governação despesista sem paralelo e a divida pública (hoje superior a 5 000 milhões de euros) em descalabro desde 2 000 onde, por exemplo só a divida indirecta aumentou mais de 1 000%. Hoje ascende (ascenderá em 2010) a 1 500 milhões de euros.
Sobre esta situação os sinais de alerta são evidentes e têm duas formas: a origem do endividamento é preocupante porque financia investimento irracional e improdutivo e, por outro lado, o pagamento desse endividamento cairá sobre os nossos filhos que sem meios libertos para pagar a divida ficarão, ainda mais, dependentes de recursos e dádivas externas. Pode ser o rombo final numa autonomia que supostamente deveria ser bem sucedida.
Mas este problema é agravado pela expectativa de uma diminuição do rating da RAM, decorrente de endividamento excessivo, de opções de investimento erradas de de necessidade de recursos externos, cujo Outlook da Moody’s, no fim de 2009, passou para negativo.
Mais grave ainda é que durante os anos que precederam a negociação dos fundos europeus hoje em vigor a governação de Jardim não quis ou não soube (qual delas a razão mais grave) impedir que a Madeira perdesse 500 milhões de euros da União Europeia e passasse a ser considerada uma região fora da coesão e, portanto, rica aos olhos dos europeus. Esse “feito” da governação do PSD afecta hoje seriamente as contas públicas da RAM e a capacidade de investimento que permitisse inverter o modelo de desenvolvimento.

 3. As expectativas futuras
Ora  o que se espera do futuro para a Madeira não pode ser abstracto. Tem de ser analisado à luz das opções de política do governo que nos (des)governa. Para isso vale a pena um olhar resumido à proposta de orçamento para 2010 do governo de Jardim e concluir o seguinte:
1.     É um orçamento inquinado com um endividamento irresponsável, não traduz opções de diversificação da economia, remete para a manutenção de uma política de investimentos públicos que, em alguns casos devia ser totalmente abandonada, noutros devia ser remetida para outras alturas de mais folga orçamental.

2.     O excesso de endividamento representa mais de 5 000 milhões, numa economia que produz por ano, em média 4 700 milhões (incluindo o empolamento da Zona Franca) , e que tem um orçamento financiado com mais de 45% de (mais) dívidas. Mas mais grave que tudo isto é que se esse endividamento fosse orientado para investimento reprodutivo. i.e. que produzisse riqueza e emprego e libertasse meios para o pagar, o governo estava a injectar adubo na economia. Mas, infelizmente nada disso acontece. O governo está simplesmente a apunhalar a nossa economia, onde as dividas actuais  já servem para pagar dívidas do passado.

3.     O governo não tem visão estratégica. Ficamos sem saber o que quer o governo com a diversificação da economia. Para isso era preciso estratégia e acções concretas mas o governo mostra com o seu plano que:

a.     Não quer mais sectores porque na verdade não tem apostas consistentes que permita uma verdadeira diversificação.
b.      Não quer mais sectores porque mantém a actuação da SDM num registo de planeamento fiscal e de parceria adormecida por parte do Governo da Região.
c.      Não quer mais sectores porque não aposta decisivamente em investimento público que atraia outros áreas de desenvolvimento.

4.     Tão grave como a ausência de diversificação da economia, porque afecta directamente a competitividade das PME’s e o emprego, é a passividade doentia do governo na resolução do problema dos transportes marítimos. Esta intolerável situação, cuja resolução não tem custos, diminui a competitividade das empresas e o poder de compra das famílias.

5.     No âmbito das empresas e do sector privado, e designadamente das PME, era esperado mais arrojo mais coragem. Porque o investimento privado não se faz por decreto era preciso acções concretas em áreas determinantes como:

a.     propostas de índole fiscal
b.     Fundo de recuperação de empresas
c.      Apoio à reestruturação de dívida
d.     Regularização efectiva de dívidas a fornecedores e de redução dos Prazos Médios de Pagamentos
e.     reforço do investimento em I&D
f.      programa de contenção de emprego em sectores como o turismo

6.     Na área do Investimento Directo Estrangeiro, sector essencial para a diversificação da economia e para o aumento da riqueza da Região era fundamental:
a.     a reestruturação da gestão do CINM
b.     O estabelecimento de objectivos concretos à Zona Franca
c.      O programa de apoio ao investimento directo estrangeiro

7.     Na área social importa realçar o que o PSD e o Governo nem quer ouvir falar, nem colocou no orçamento:
a.     Além da redução do IRS e das propostas fiscais com impacto social, como, por ex., penalizar as concessões “oferecidas” (numa lógica de monopólio administrativo) pelo GR, para ajudar a financiar a crise;
b.     Descongelar o tempo de serviço da administração pública e professores, como medida de total justiça social e de impacto na propensão ao consumo;
c.      Lançar um programa especifico de luta contra a pobreza, determinante para estancar os problemas crescentes da má de distribuição do rendimento promovido por um modelo de crescimento económico que mantém à margem do desenvolvimento franjas significativas de população;
d.     Apoiar com medidas efectivas os mais velhos, designadamente os reformados com pensões abaixo do limiar de sobrevivência;

Ora, perante este cenário em que as soluções não são compatíveis com as necessidades dos madeirenses e onde a estratégia para 2010 da governação traduz-se numa espécie de rol de obras inconsistentes e de dividas galopantes resta-nos esperar pelo pior.
Ou seja, a crise externa que o mundo atravessa terá na Madeira um local fértil para se expandir e se estabelecer contando para isso com o forte apoio do governo de Jardim. Parece óbvio que, com este panorama e esta acção política, em 2010 tudo será ainda pior e devo, obkectivamente, destacar:
a.     Aumento do desemprego
b.     Aumento das falências
c.      Aumento as bolsas de pobreza
d.     Aumento da insegurança
e.     Aumento da desconfiança junto dos empresários
f.      Aumento de forma irresponsável do endividamento para objectivos pouco prudentes
g.     Afastamento irreversível do investimento privado, com investimento público irrealista, irracional e sem retorno
h.     Consolidação do ónus para as gerações vindouras, hipotecando a esperança dos nossos filhos

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